rede, a revolução silenciosa

Era nova na reunião de condomínio.
Isso é um jeito de dizer que ela estava ali cheia de boas intenções e crenças na convivência harmônica. Esperança de um mundo melhor.

Então, eu queria sugerir que a gente colocasse ganchos para redes no play.

A proposta foi vista como algo preocupante e causador de balbúrdia.
Rede não.
Traria grandes confusões.
Rede, minha gente. O nosso único momento de estar em paz com o mundo. De não querer saber de nada. Deixa essa polêmica pra lá. Foda-se o noticiário. Jornal, só se for pra tapar ozóio e fazer um escurinho.
Se bem que, vai ver que é isso. Uma rede pode ser o começo de uma revolução. 
A rede, pensa por esse lado, é o avesso do capitalismo. Cabine imaginária do passa e repassa: rede ou mais valia? Rede, rede, rede, mil vezes rede.
Que revolução maravilhosa seria, pois não precisaríamos fazer nada.

Os boletos chegando e a gente no play. Nhec Nhec. Nhec Nhec. Ô sonho.

Mas na reunião de condomínio, a instalação da rede continuava sendo boicotada.
– As pessoas vão falar alto e dizer palavrões – ponderou uma moradora exaltada.

Avimaria, a gente tinha que ter explicado que ninguém grita palavrão numa rede.
No máximo sussurra baixinho. “Caralho, não saio daqui nunca mais”.
A rede é essa nossa revolução silenciosa.

Avante, companheiros. Quer dizer, avante coisa nenhuma.
Nhec Nhec. Nhec nhec.

 

 

a situação

O encontro é para analisar a situação do país.
Depois da fala de dois grandes políticos esquerda, um intelectual fumante pede a palavra:
– Estou aqui ouvindo e me veio uma dúvida.
Todos atentos a sua possível brilhante intervenção.
– Me jogo desta janela ou daquela outra?
Risos de nervoso .
– Que bom que a sua dúvida é paralisante. Assim você não se joga de nenhuma delas – fala o político.
Um artista do outro lado da sala interrompe.
– Jamais me jogarei. Tenho mais de oitenta anos. Sobrevivi à ditadura. Vou sobreviver agora também. E fiz de tudo pra sobreviver. Só não vendi maconha.
Mais risos de nervoso.
– Mentira, vendi sim.

Cai o pano.

os quebradores de encantos

A porta bandeira desfila pelo salão. E é reverenciada, ela roda.
O mestre sala flutua e sorri. E gira.
É um dia de glória na quadra da escola de samba.
E eles dançam, emocionados. Até que param no meio da multidão . Param num abraço. Num abraço só deles. Só deles, só deles dois.

E sabemos que eles estão a um passo (de dança) de transbordar. Todos nósestamos.
Até os mais bravos diretores de harmonia têm os olhos cheios d’água.
O mundo parece estar congelado naquele momento.
Estamos paralisados. Fomos encantados.

Mas ela não.
Ela, oitenta anos talvez, moradora dali, ela abre caminho e avança em direção à porta-bandeira.
Diz algo no seu ouvido.
E ela, só ela, sabe que também cabe naquele abraço. O abraço mais lindo de todos os tempos. Um abraço que não entendemos por inteiro, a porta-bandeira, o mestre-sala, a senhora. Mas não é preciso, basta saber que é especial. Que é uma benção. Que há mágica. Que há. Basta saber que há.

As pessoa com iphone, motorola, samsung, as pessoa cercam a cena, selfie, stories a porra toda. Quebradores de encanto. Malditos.
Ave, esse gente destruiria o Olimpo em minutos.

o fim do filme

Uma amiga me ligou para falar que ficou pensando no roteiro das nossas vida.
E como seria o fim do filme.
Quando estivessem passado os créditos, saca, esses filmes que mostram o que aconteceu com os personagens muito tempo depois.

E que na hora dos créditos, ela já tinha roteirizado tudo baseado em fatos reais, ou seja, nas nossas próprias vidas, quando passasse, naquela hora que os impacientes já estão meio levantando?

O filme ia contar que a gente terminou como desajustadas.

Curti.

Eclipse

Parecia, assim, que era meio reveillon.
O povo andando apressado pelo calçadão para ir pra Praia do Diabo ver o eclipse.
Estranhei o interesse súbito por astronomia, depois pensei que era negócio de crise. Pelo menos eclipse é grátis. Mas a verdade é que carioca é animado mesmo. Adora um ajuntamento. Uma farofa. Amo muito.

Parecia tanto reveillon que tinha até casal brigando.
– Que que te custa ir lá dar uma olhadinha?

A Pedra do Arpoador tava com lotação esgotada.
Calçadão também. Mas na areia tinha espaço pra geral. E vendedor de caipirinha. Jogadores de frescobol fingindo que não estavam nem aí pra lua. Cachorros. E muito mais.
E o eclipse? Nada.
– É golpe, eu pensei.
Vai que cancelaram.
E nada.

De repente, começa um alvoroço. Pessoal se levantando nervoso.
– Arrastão! – disse alguém, nestes tempos de neurose na velocidade mil do créu.
Mas era o eclipse. O maior eclipse dos próximos mil anos. Ou dos vinte segundos. Talvez semana que vem tenha outro. Ou uma lua gigante.
Lindeza. Depois alguém resolveu cortar um bolo de aniversário. De um menino. A Praia do Diabo inteira cantou parabéns.
Fiquei pensando que o Rio ainda é meio bom.
Quando ia embora, um homem dizia pro amigo que carioca é tudo escroto.

E foi assim essa sexta. Como se fosse reveillon.
Como se a gente estivesse começando um novo ano.
Vai que estamos.

Na muvuca

Na muvuca, no gargarejo, no aperto da multidão do lula livre. Ouvi assim. Um pedaço de conversa.

– Qualé . Minha mãe fazia salgadinho pro Brizola .

Rio, ti amu disgraça.

Os monstros vieram se queixar

Os monstros vieram se queixar.
Muito tempo sem sair de casa
Até as traças estão numa boa,  gritaram.
E comeram toda a biblioteca.
Prometi, então, uma noite daquelas.
Uma insônia daquelas.
Uma nóia daquelas.
Quem sabe assim eles ficam quietos.
Quem sabe assim eles me esquecem.

Beijocas, não

“Então,  beijocas”.

Fico olhando perplexa para aquela mensagem.. Beijocas. Beijocas. É, boy.
Vou ter que sacar meu três oitão.
Porra, beijocas não. Qualquer coisa, mas beijocas não.
Beijocas é a covardia em letras miúdas no zap.

Não tem nada mais broxante do que beijocas.
Vindas da boca de um ex.  E essa  boca já fez de tudo, meu bem, e a minha também, não se esqueça.
Claro, depois deu tudo errado, como manda o figurino. Paciência, avante, simbora.  Já passou foi tempo.
Porém, criatura.
“Beijocas” é querer arrancar o erotismo da vida à força. E não conseguir.
“A felicidade é uma arma quente”.
Beijocas, não as quero, nem se estiver morta.

Europa

Na lua o maior dos oceanos
Pra fazer deus rir: planos
O mundo salgado debaixo do gelo
eu me perdi num cacho do seu cabelo
Um labirinto
Um caracol
Eu sou liberdade
Você meu anzol
E rabisco com letras tortas
Esse universo que inventei
Cheio de estrelas mortas

os amores que aqui não estão

Para onde vão os amores que não mais estão? Para onde?
Se escondem pela casa,  metidos em frestas, junto com as traças, se alimentado dos meus próprios restos.

Enquanto em durmo, eles se deitam ao meu lado e sussurram.
Lembra como foi bom?
Lembra com foi ruim?

Chamei a dedetização.

O reino hipster do hortifruti

Era para ser só uma compra de lances pra faxina mas, no site do supermercado, apareceu o grande anúncio colorido. “Conheça a fruta do momento”. Letras garrafais. Climão. Avimaria, jamais pensei que tivesse que acompanhar as tendências no segmento das frutas. Mas me vi ali, nas portas do reino hipster do hortifruti.

Cliquei.

Pitaya, é ela, a fruta do momento, rosa choque escândalo, e continuei me inteirando, “é doce e tem baixo nível de calorias. Fonte de Vitamina C, rica em fibras e minerais, principalmente fósforo e cálcio. Possui quantidades significativas de antioxidantes, que previnem os radicais livres.” Saudades de quando uma fruta era uma fruta e tava mais que bom. Hoje elas vem até com bula. Certeza de que o mundo complicou.

Lembro de um dia,  hora da sobremesa.  Ele parece na sala de jantar com quatro kiwis em uma bandeja. Toda a mesa faz “óóóó”.  O pai vai logo avisando que não é pra acostumar. Só daquela vez, “só para experimentar”.  Cês num têm nostalgia de umas coisas loucas, quando a vida era meio ruim?  Kiwi era extravagância, o cinema nem tinha lugar marcado e quando abria a porta da sala todo mundo saia correndo como se fosse o apocalipse, era horrivelmente bom, sei lá. Eu tenho saudades daquele mundo mais impossível, em que eu sonharia a vida toda com uma pitaya porém jamais provaria. Ficaria querendo para sempre essa fruta exótica, e planejando uma viagem até um pequeno povoado da América Central, talvez nem tão naif, só comer uma pitaya em um mercado na Cidade do México, mas nunca chegaria lá. O desejo, o desejo. o desejo.

A pitaya foi entregue ontem aqui em casa junto com o sabão em pó e a água sanitária.
Tem gosto de melão. De melão, pense num desgosto.
Saudades, mundo impossível.

E eu te conheço?

“Dormiu comigo?”, ele perguntou.
Acho que não.
“E não deu bom dia por que?”, continuou, ofendido.

Porque não. E me deixa. Vai ver seu tô lá na esquina. Um beijo e não me liga.
Quem disse que ele sossegou?  O fulano veio atrás, só dando ideia errada, que eu tinha que isso, e aquilo e sei lá mais o que.  Falou um monte.   E eu? Fazendo a sonsa.  Por acaso eu te dei essa intimidade, criatura? Nem te conheço.  Eita, aí o caboclo virou bicho. Falou tudo da minha vida,  que eu era louca por ele, só pensava nele e nele e nele. Depois partiu para a sessão de fracassos. Aos berros,  para quem passasse por ali, gritou todos os meus defeitos, disse que eu tinha boleto em aberto e tudo mais.  Eu?  Fazendo a egípcia.  Linda, maravilhosa, aquele ventilador de diva imaginário. Comigo não, violão.
Respirei fundo e com um cínico e delicado sorriso, mandei um..

Certamente o senhor está me confundido com outra pessoa. Passar bem e bom ano.

Tomei meu rumo. E ele? Ficou pela rua, desnorteado. Perplexo.
Avimaria, como eu amo enganar um Problema!

A arte das listas

1Um certo dia, nos idos de não sei quando, tive uma briga fútil com minha amiga Nina.
Falávamos sobre os planos de dominação mundial do 02 Neurônio (que, como sabemos, falharam) e, num dado momento da discussão por email, ela escreveu assim: eu não aguento mais as suas listas. Quer dizer, na minha memória foi em letras bem garrafais em caps lock gigantes. EU NÃO AGUENTO MAIS AS SUAS LISTAS. EU NÃO AGUENTO MAIS AS SUAS LISTAS.

Verdade, eu tenho mania de listas.
Escrevo, reescrevo, agora mesmo, olhando por aqui, eu vejo umas três jogadas pela mesa.
As listas não fazem de mim uma pessoa organizada e fazedora de suas tarefas, não, não fazem.
Porque eu sou bagunceira (e tenho orgulho), procrastinadora (e morro de culpa), mas está lá no meu mapa astral: virgem com ascendente em virgem.
Então, eu faço listas.

Nesta época do ano, nos afeiçoamos ainda mais às listas. Guardamos os últimos dias de 2016 para tudo que há de ordinário nessa vida: marcar o exame médico, consertar o gás, passar no banco. A lista de 2017, por sua vez, é cheia de planos sonhadores, amar exageradamente, ficar na praia o mais tempo possível, desprezar o capitalismo, coisas assim.

E entre uma tarefa da minha lista (consultar o oculista) e outra (fazer os óculos), vi na vitrine da livraria o maravilhoso “Listas Extraordinárias”, de Shaun Usher, um obcecado pelo assunto. O livro tem mais de uma centena de listas, dos mais diversos temas. A lista das Bruxas de Salem, datada de 1692, com o nome das mulheres acusadas de bruxaria e de seus acusadores. A lista de todos os nomes possíveis para os sete anões (cinquenta, ao todo), pois nos contos de Grimm eles eram apenas os sete anões mesmo e só foram “batizados” na adaptação da Disney de 1934. Esbaforrido, Pavão, Ranheta, Piegas foram alguns que ficaram de fora. Em 1877, Thomas Edison também fez uma lista de nomes para a sua nova invenção, como orqueógrafo, trematofone, eletrofemista e palmofone. No fim das contas, escolheu fonógrafo.

Existem listas de amor, com uma “to do list” de Jonnhy Cash com a melhor tarefa de todos os tempos: Kiss June (seguida de “não beijar mais ninguém”). Uma lista de Sid Vicious com todas as coisas que ele amava em Nancy (conversa extremamente interessante e a buceta molhada mais linda do mundo). Uma lista de Marilyn Monroe dos homens que ela pegaria.

Existem listas de ódio, como uma de Albert Eistein para sua mulher, com as exigências que ela deveria seguir para que eles continuassem casados. Entre elas: “Você observará os seguintes pontos em suas relações comigo: não esperará nenhuma intimidade de minha parte, nem me repreenderá de forma alguma, parará de falar comigo, quando eu lhe pedir. Sairá do meu quarto ou de meu escritório imediatamente e sem objeções, quando eu lhe pedir.” Basicamente, a lista transforma o gênio da física num monstro, mas pelo menos Mileva Maric largou o marido alguns meses depois.

Muitas listas de escritores e poetas, de como escrever melhor, rascunhos de poemas, como levar a vida. Uma lista da violência em cantigas infantis escrita em 1952, em que o estudioso analisa as músicas e conta 2 casos de morte por asfixia, 1 caso de morte por esmagamento, 1 pela fome e 1 por ressecamento, 15 alusões a pessoas ou animais mutilados, 1 caso de ingestão de carne humana. Mark Twain fez uma lista com “etiquetas de salvamento de uma pensão em chamas”. Salvar primeiro as noivas, em segundo as pessoas pelo qual o salvador sente afeição, porém ainda não se declarou, só depois as irmãs. Os bebês estão no 13 lugar na ordem de salvamento, os empregados devem ser salvos antes dos proprietários. E os móveis, antes das sogras (o último item desta lista de 27)!

Do decálogo da máfia à lista de compras de Galileu para fazer um telescópio decente (o primeiro foi feito com lentes de óculos), de uma lista de Susan Sontag sobre regras para criar um filho a uma com os efeitos do ópio em quantidade (32 efeitos, sendo o último, a morte), seguida de uma com as contradições do ópio, 26 ao todo, entre elas, provocar sonolência e insônia, levar à loucura e tranquilizar ao mesmo tempo.

Um livro maravilhoso para os amantes de listas. E encerro aqui com alguns itens da lista de F.Scott Fitzgerald sobre “coisas que você não deve se preocupar”.
“Não se preocupe com o passado.
Não se preocupe com o futuro.
Não se preocupe com decepções.
Não se preocupe com prazeres.
Não se preocupe com satisfações.
Não se preocupe com insetos.” (Nota da redação: ignore este item)

PS: Ao final deste artigo, elaborei a seguinte lista.

Listas do livro 125
Listas escritas por (ou para) mulheres 19
Listas de mulheres sobre etiqueta, amor, receitas, filhos, corpo 9
Listas de mulheres sobre quem matou Kennedy 1
Listas de mulheres sobre como ser roqueira 1
Listas de mulheres sobre presentes para a rainha 1 (escrita pela própria)
Listas de mulheres sobre como se concentrar 2
Listas de mulheres sobre o atentado do WTC 1
Listas de mulheres sobre artes e livros 2
Listas de mulheres com nome para invenções 1
Listas de mulheres com nomes de desaparecidos 1

Listas ferrando com as mulheres 2
Listas ferrando com os homens 0

* sujeita a recontagem

ode ridícula ao parêntese

Algumas teclas quebraram por aqui.
Não tenho mais zero.
Volume, só o de aumentar. Diminuir, esquece.
Hífen foi comprar cigarros e nunca mais voltou.

Mas confesso que o que está pegando mesmo é o parêntese.
O segundo, sabe? Pra fechar as coisas. Encerrar o assunto.
A minha mania de deixar tudo meio por fazer, jogada na minha cara por um teclado velho.

Parêntese, volta.
tô sentindo sua falta.

E também do emoticon do sorrisinho. nesse mundo cheio de tristeza.

:( :(

diário monstros número 46292

os monstros me chamaram pra fazer um piquenique.

tinha bolo meio de festa eu perguntei o porquê. eles disseram que estavam comemorando a minha vida estar pior do que a sua.

nadamos na represa.
bife a milanesa frio no pão francês.
quando  foram no pedalinho, eu fugi.

abri a porta de casa, eles já estavam lá. são os túneis. que eles cavam.
fizemos pipoca, uma zebra fugindo do leão na tevê, eles perguntaram se eu ainda pensava em você. e eu respondi: coitada da zebra.