A fábula da mulher impossível

Em outras rodas, e pelas ruas, e pelas bocas, em velhas juras.
Em novas dores, com outros homens, em todas camas, e seus amores.
Nos mesmos erros, antigos trastes, em todas brasas, no carnaval.
Sempre nos bêbados, nos seus rascunhos, nos infelizes,  na solidão.
A mulher impossível está do outro lado da porta.
Esperando que você abra.

Fotos que não tirei

Será que o mundo já não tem fotos demais? E que o nosso olhar e nossa memória não bastam para retermos as imagens e, a partir daí, transformá-las?  Este é o meu novo projeto que começa com um canal no Instagram.

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‘Mamãe’ e as nossas dores

Eu era pequena, mas ela pensava que eu era menor ainda.   Meu pai, então, teve uma ideia,  pediu que eu lesse o aviso da recepção e eu fui lá e li: “proibida a entrada de menores de cinco anos.” Aí a moça me deixou entrar.  Eu tinha seis e estava visitando a minha mãe no hospital.  Neste dia, ela passou bem mal. Eu me lembro, e me lembro também da minha avó levando a gente pra fora do quarto, nervosa,  me lembro da minha irmã perguntando se era grave,  me lembro de ter perguntado para a minha vó o que era “grave”.  Neste dia, minha mãe entrou em coma.

A partir daí, é um branco.
O meu cérebro, amoroso e gentil, simplesmente parou de registrar memórias.
Os acontecimentos só voltaram a ser gravados quando chegou a hora da gente se mudar para o Rio de Janeiro, me lembro da professora explicando na classe que eu não ia mais morar em Campinas, eu acho que o cérebro achou que ia ficar sem pé nem cabeça se não voltasse a gravar a partir dali, ia ficar tipo filme experimental. Então, eu já tinha sete anos, a minha mãe não tinha morrido, quer dizer, parece que ela morreu mas aí o meu pai assinou um papel para um lance arriscado e ela desmorreu.

Na semana passada, eu fui ver “Mamãe”, a peça do Álamo Facó – ele mesmo escreveu, é sobre a sua mãe que morreu cem dias depois de um diagnóstico de câncer. Foi lindo, mas doeu também, a minha dor esquecida.
Então fiquei pensando que a arte é este  jeito  bom da gente lidar com a dor, mas que a arte não transforma a dor, transforma apenas o  jeito da gente sentir a dor.
As nossas dores, sabe, elas estarão sempre com  a gente.
Nós somos as nossas dores.

Este mês, a minha mãe fez 72 anos. Fomos comer pastel no Bar Urca, que ela adora pastel, eu também, a gente acha que a vida sem pastel perde muito da graça.
Neste sábado e domingo, a peça tem as últimas apresentações no Rio, depois vai pra São Paulo. Seu eu fosse você, ia. E levava, junto, as suas dores.

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As queridas ficam

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Que tem machismo, a gente já sabia.
E que a misoginia anda por aí de boas, pois é.
É tão escancarado, que um homem que bate em mulher vai se candidatar a prefeito e é isso.
Ontem foi um circo dos horrores, tá claro. Teve gente dedicando voto a torturador. E tudo. Conforme a votação avançava, avançava também a tentativa de humilhar e calar as mulheres que se posicionavam a favor da presidenta. Elas, principalmente elas. Com vaias. Com urros.
As mulheres.
Escrevo este texto aos prantos, sabe como é, a gente pode se emocionar pra valer, só os boys é que don’t cry. A gente é puro coração (e tudo mais). Mas é o seguinte.

TCHAU O CARALHO.
AS QUERIDAS FICAM.
SOMOS MUITAS E VAMOS BOTAR PRA FUDER.

Ficou decidido assim

Ficou combinado assim.
Na impossibilidade de chegar a um acordo – aparentemente, o resultado da eleição não estava valendo! – todo o futuro da nação seria decidido em uma partida de queimada. Uma única partida, disputada por dois times, dois times de uma mesma família brasileira desta assim que nem a de todo mundo, um primo petralha, uma prima coxinha, um tio deixa-isso, enfim. Vocês sabem. A escolha foi feita através de um algoritmo que detectou o grupo de whatsapp com mais barracos em território brasileiro.  E  família escolhida ganhou um ano de compras de supermercado!

Eis que chega o domingo, o grande dia. O jogo será transmitido em rede nacional diretamente do quintal. Cabe à avó matriarca, já na cadeira de rodas e de camisolão, o apito. Todos os parentes reunidos, começa divisão de times. “Sou contra este Fla-Flu”, diz uma fulana, no que é seguida por vários isentões que também só querem ficar de fora, só olhando. “Tudo bem, mas mesmo assim tem que escolher um time pra ficar na reserva. Não tem jeito. É o futuro da pátria verde-amarela”, fala um tio mais velho, eleitor do Bolsonaro. Tensão. A matriarca finge que não é com ela e desliga o aparelho de surdez. Para surpresa de todos , o Tiozão é apoiado por Lula, seu sobrinho que, na verdade, na verdade, se chama Reginaldo “mas a partir de hoje só atendo por Lula”. “No muro não vai dar”, diz o sobrinho.  Finalmente eles concordaram em alguma coisa! Esperança!

Mas, então, acontece o inesperado. Os isentões surtam e partem pra cima de todo mundo, distribuindo sopapos.
Aí não tem mais jeito.
Fim.

Quero flores. E o bagulho todo

Quero flores. Sim, sim, sim, quero flores.
Quero rosas, lírios, orquídeas. Quero astromélias vermelhas e flores de pêssego quando chegar a temporada.
Quero, quero, quero flores.
E O BAGULHO TODO!

Cês sabem, é o salário, os direitos, a louça lavada e a mesma posta. Quero entrar no táxi de boa e flores. Quero a legalização do aborto e flores. Pode ser até aquela violetinha barata, tá lindo. O respeito, e flores. A escuta, e flores. Tô com preguiça de entrar em detalhes. E flores.
Flores, flores, flores!
E que Pedro Paulo peça pra sair, no mínimo.

Você rápido e zum

zumVocê passou tão rápido e, zum, nem soube se era pra sentir amor saudades raiva nostalgia ódio nada. E eu, veloz, zum, não tive tempo pra resolver se ia ser linda monstro egípcia transparente falsária. Apenas desapareci no cruzamento e, zum, eu e o meu coração passamos o resto do dia jogando conversa fora e comendo sardinha frita.

Não chegamos a nenhuma conclusão.
Mas as sardinhas estavam ótimas.

Fica, Carnaval

ficaFica, Carnaval, que vai ter bolo. Fica. Faço tudo que você quiser, te juro. Te dou comida, roupa lavada e o que mais você pedir. Passo café que é uma beleza. Te prometo os maiores dengos e e as mais novas obscenidades. Te dou a senha do wifi. O meu amor descabido. Fica que vai ser lindo. Não me larga assim, criatura, como quem vai na esquina comprar cigarros e volta só no ano que vem como se não fosse nada. Fica pra sempre, não faz a micareta, vai. Fica, Carnaval, eternamente, mas sem papel passado, só união instável, eu, você e o mundo. Sim, sim, eu sei. Já fiz a sua caveira e falei mal de tu pelas ruas. Barbaridades, confesso. Me perdoa. E fica. Vou passar o resto da vida te jogando confete, falando como és o maioral, não me importo nem com os pequenos maltratos, as minhas marcas roxas e as olheiras por baixo do glitter.
Fica que eu te prometo o paraíso que você finge existir.
Fica, Carnaval, a casa tá uma bagunça e de vez em quando eu choro.
Mas fica, fica, fica.

Figueroas, O Terno, Boogarins no Circo

jardimeletricoDá série vídeos toscos de noites boas. Show do Circo Voador, luxo total, no festival Jardim Elétrico – que ainda teve Bike mas para este não rolou de chegar a tempo porque, coisa maravilha!, os shows começaram praticamente no horário. Aqui uns sons da noite (nem sempre trabalhamos com foco e qualidade, mas sempre com amor).






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Coentro é amor

coentroTem coisa que é unanimidade. Manjericão. Já escutou alguém reclamar de um manjericão? Nunca. Nunquinha! Tem coisa que veio ao mundo para dar problema. Coentro. O coentro é amor ou ódio. Se elogiam uma comida e você diz que vai provar, há sempre alguém que alerta, como se estivesse te salvando de um perigo mortal. “Cuidado! Você gosta de coentro?” Tanta rejeição fez até com que ele – ao longo da evolução- ficasse parecido com a salsinha. Só pra ver se conseguia ser levado pra casa pelos desavisados.

Um dia veio um namorado e o homem odiava coentro. Mais que odiava, ele amava odiar e gabava-se de odiar. E eu, fiz o que? Comecei a odiar o coentro junto. Ah, o mimetismo patético do amor! “Nós dois não gostamos de coentro, olha só, que lindo.” Quem nunca caiu nessa, trocou de amigos, virou a casaca, mudou de partido, quem nunca, quem nunca. Tudo para justificar o que – se for de verdade, verdade mesmo, coração selvagem – não precisa de justificativa alguma. É tu porque sim, ponto. Anos destemperados, acreditando na minha própria mentira diante do amor mequetrefe. Duro foi descobrir, tempos depois, comendo uma açorda à alentejana em êxtase, que coentro é maravilha pura. E os anos e anos privados deste prazer? Não voltam jamais.

“Somos tão parecidos, nascemos um para o outro”, diz o clichêzinho que de vez em quando vem nos visitar. O caralho. Nascemos só para o mundo e, mesmo assim, até que o mundo se encha da gente e nos despache de vez. Mas até lá, vamos exagerar neste coentro!

Eu falto à academia. E me deixa

academ

Ainda estou tomando o café quando vem um telefonema. Ele diz que está sentindo a minha falta. O coração acelera. Mas, não, não é nada disso. É só o estagiário da academia dizendo que “verificou no sistema que eu não tenho ido, tá tudo bem?”. Sou simpática, apesar de não ser nem dez da manhã, o horário permitido para telefonar para alguém sem ser por motivo de morte de um ente. Sou simpática num gesto de solidariedade, não deve ser fácil o serviço do rapaz, ligar para as pessoas estranhas (somos muitas) que se matriculam para não ir. E, do outro lado, escutar sempre a mesma suave e deslavada mentira. “Vou voltar esta semana”.

Mas quando foi que nos roubaram o direito inalienável de PAGAR academia e NÃO IR, sem ter que dar explicações para o estagiário? Estou devendo? Estou sendo paga para malhar? (Não vou à academia faz tanto tempo que ainda uso gírias dos anos 80). Estou pagando a mensalidade com o suor dos outros? Não, não, não. Eu estou rasgando o meu próprio dinheiro, algo que sempre pensei ser assegurado. Está lá, no livro do Karl! “O modo de produção capitalista repousa no fato de que as condições materiais da produção encontram-se nas mãos dos que não trabalham, sob a forma de propriedade do capital e propriedade do solo, ao passo que a massa possui apenas a condição pessoal da produção — a força de trabalho. Mas se a massa quiser faltar à academia, a massa falta!”

Por isso, me deixem em paz! Não trabalho com culpa antes das dez (suave e deslavada mentira).

Olá, senhora

Sujeito, nas últimas, vê entrar uma mulher no quarto do hospital.
– Você vem sempre por aqui? – pergunta, sem perder tempo.
– Sempre. Quase toda semana.
Diz isso e sorri, tímida. Ela se senta na beira da cama e abre a bolsa. Tira um maço de cigarros , acende um.
– Aceita?
Ele se surpreende. Olha para a porta e, só depois, aceita.
– Achei que isso não era permitido por aqui… Mas um cigarro só, mal não faz.
– Para mim eles fazem algumas exceções…
– Ah fazem? Você trabalha com que, afinal?
– Difícil explicar.

Ela diz isso e solta círculo de fumaça pela boca
– Tipo no RH, sabe…
– Sei..

Os dois se olham. E depois, por um segundo, ele desvia o olhar para aqueles botões da sua blusa. Está apertada.
Fumam em silêncio. Ela se levanta e olha para o relógio
– Nossa, agora eu tenho que ir..
– Mas já?
– Tá na minha hora. Vem comigo?

Horário do óbito: 21h34m


Publicado no 02 Neurônio, 2011