Eu falto à academia. E me deixa

academ

Ainda estou tomando o café quando vem um telefonema. Ele diz que está sentindo a minha falta. O coração acelera. Mas, não, não é nada disso. É só o estagiário da academia dizendo que “verificou no sistema que eu não tenho ido, tá tudo bem?”. Sou simpática, apesar de não ser nem dez da manhã, o horário permitido para telefonar para alguém sem ser por motivo de morte de um ente. Sou simpática num gesto de solidariedade, não deve ser fácil o serviço do rapaz, ligar para as pessoas estranhas (somos muitas) que se matriculam para não ir. E, do outro lado, escutar sempre a mesma suave e deslavada mentira. “Vou voltar esta semana”.

Mas quando foi que nos roubaram o direito inalienável de PAGAR academia e NÃO IR, sem ter que dar explicações para o estagiário? Estou devendo? Estou sendo paga para malhar? (Não vou à academia faz tanto tempo que ainda uso gírias dos anos 80). Estou pagando a mensalidade com o suor dos outros? Não, não, não. Eu estou rasgando o meu próprio dinheiro, algo que sempre pensei ser assegurado. Está lá, no livro do Karl! “O modo de produção capitalista repousa no fato de que as condições materiais da produção encontram-se nas mãos dos que não trabalham, sob a forma de propriedade do capital e propriedade do solo, ao passo que a massa possui apenas a condição pessoal da produção — a força de trabalho. Mas se a massa quiser faltar à academia, a massa falta!”

Por isso, me deixem em paz! Não trabalho com culpa antes das dez (suave e deslavada mentira).

Olá, senhora

Sujeito, nas últimas, vê entrar uma mulher no quarto do hospital.
– Você vem sempre por aqui? – pergunta, sem perder tempo.
– Sempre. Quase toda semana.
Diz isso e sorri, tímida. Ela se senta na beira da cama e abre a bolsa. Tira um maço de cigarros , acende um.
– Aceita?
Ele se surpreende. Olha para a porta e, só depois, aceita.
– Achei que isso não era permitido por aqui… Mas um cigarro só, mal não faz.
– Para mim eles fazem algumas exceções…
– Ah fazem? Você trabalha com que, afinal?
– Difícil explicar.

Ela diz isso e solta círculo de fumaça pela boca
– Tipo no RH, sabe…
– Sei..

Os dois se olham. E depois, por um segundo, ele desvia o olhar para aqueles botões da sua blusa. Está apertada.
Fumam em silêncio. Ela se levanta e olha para o relógio
– Nossa, agora eu tenho que ir..
– Mas já?
– Tá na minha hora. Vem comigo?

Horário do óbito: 21h34m


Publicado no 02 Neurônio, 2011

As pinturas do Dom

dom1Acaba no sábado a exposição do Domenico Lancellotti aqui no Rio, lá na Bhering. “É a primeira produção que tenho depois que voltei a pintar”, explica ele. As 60 pinturas estão a venda, “para arrecadar algum dinheiro para enfim terminar meu disco que comecei a gravar em Londres durante a olimpíada de 2013, o álbum está quase, faltando gravar algumas coisas e todo o processo de finalização e prensagem”.

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São pinturas em papel, com tinta acrílica, pigmento, grafite. 21 x 21 cm. Uma lindeza!

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Onde e quando
A Feira – que fica na Bhering (primeiro piso) – está aberta de segunda a sexta e no sábado tem mais festinha, de 14h às 21h. Tem cervejas artesanais do Sung Pyo Hong, comidinhas e música boa. Os trabalhos custam R$ 600 e, para quem levar mais de um, R$ 500. Endereço: Rua Orestes, 28, Santo Cristo.

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Grêmio Recreativo do Draminha do Ano Novo

anoÉ só mais uma voltinha da Terra ao redor do Sol, fico assim repetindo o mantra, já já passa, mas aí vem o pensamentinho, como odeio pensamentinhos, o pensamentinho sobre a incapacidade de parecer suficientemente feliz como o momento pede sorriso colgate champanhe boa. E  2015 fuma o cigarro e vem perguntar se foi bom pra você, aquela continha detestável em que contabilizamos os amores e as dores, e é aí que chegam as garotas mais simplórias que eu conheço, quando andam juntas, então, a culpa e a esperança, suas falsas, estúpidas. Quer saber, me deixem,  desta vez não vai dar, meninas,  não me arrependo de absolutamente nada e também nada espero. Sim, não quero nada de 2016-  o que vier eu traço – mesmo que venha o fim do mundo, tô de buena, só peço que seja uma bola de fogo linda e, se não for pedir muito, num fim de tarde na praia.

O equilíbrio cósmico das pendências

pendenciasTenho uma teoria de que cada pessoa vem ao mundo com um número de pendências pré-determinado. É um número aleatório – ou se você é religioso, talvez kármico –  um número só seu.  Seu e para sempre. O meu é algo  perto de  234. Eu vim e partirei deste planeta com 234 pendências. Na prática, isso significa que assim que eu vencer a procrastinação e resolver qualquer pendência, uma outra surgirá do além para ocupar este lugar vago e, assim, garantir o equilíbrio cósmico.

Quando eu digo pendências, falo dos problemas irritantemente cotidianos –  ficam fora desta conta as pendências amorosas e melancolias em geral.  São os entraves idiotas. Uma caixa-postal aberta e abandonada em um correio no Jardim Botânico. A torneira que está pingando. Uma dívida pequena, um dinheiro a receber menor ainda. Eu tenho 234 pendências, até que a morte nos separe.

A sabedoria da vida está, portanto, em conseguir trocar de pendências e se dar bem. Um jogo de cartas, um programa do Sílvio. Vejam só, este ano resolvi um problema do imposto de renda que me atormentava mas, assim que isso aconteceu,  meu tanque entupiu.  Uma sorte! Prefiro um tanque entupido do que receber, ao invés de um bilhete de amor, uma carta de uma delegada da Receita Federal. Não foi legal.  Passados dois meses, hoje, eu encontrei forças sobrenaturais e, apesar do profundo sofrimento e da dor no dedo, liguei para a Desentupidora Tic Tac. A Desentupidora Tic Tac tem quarenta anos na praça e Seu Alair, dono e desentupidor-chefe, se encontrava irritantemente eufórico.  Perguntou se eu estava animada para o Natal. Quando respondi que não, lembrou que bom mesmo era o Reveillon.  Simpaticamente de mau-humor (um estado de espírito borderliner), expliquei para o Seu Alair que odeio o Reveillon ainda mais. De nada adiantou. Seu Alair não se abateu e, com sua ultrajante felicidade, disse que a vida anda boa e os canos, entupindo como nunca!

O tanque agora vai bem, a água descendo com uma pressão que dá gosto. Mas veio aquela angústia que eu conheço: sei que, num prazo de 24 horas, uma outra pendência surgirá. Talvez tenha sido uma péssima troca, algo terrível pode vir por aí, um monstro japonês, um cartório na Pavuna. Mas aceitarei esta pendência, em paz e tranquilidade. Tudo precisa estar erradamente no seu lugar para que o mundo ainda exista. Eu confio no universo. E esqueço senhas.

Coleção de medos ridículos

santinhos
Tenho medo de jogar fora os pequenos santinhos. Não que eles sempre me ajudem, mas tenho medo que entristeçam, rasgados no lixo, e me compliquem a vida. Pela casa, acumulo santinhos de todos os tipos, os que auxiliam nas doenças e os que desatam os nós, os das dificuldades abstratas e os de proteção genérica, entre páginas de livros, escondidos aos montes em caixas. (De alguns, confesso, conto até mais de uma dúzia.)

Já tive medo de cachorro, não mais, só quando os dentes afiados roçam a  pele, tenho medo da aula de ginástica e de nunca mais te ter, de pé direito alto e, um pouco, de elevadores e do metrô.

Tenho medo de jogar fora os pequenos santinhos e, por isso, os coleciono, junto com a minha coleção de medos ridículos. Tem dias que tomo coragem e jogo fora.  Mas sempre peço desculpas e que eles me perdoem. Amém.

Armaduras

armaduraEu ando muito cansada das armaduras.
Hoje eu quero lutar – mas de peito aberto – pelo meu direito absoluto de pedir colo. E dizer que eu não sei se tudo vai dar certo, não mesmo.
Eu ando muito cansada das armaduras, elas pesam.
(Quando foi mesmo que paramos de chorar?)
Eu ando muito cansada da valentia que não pode cessar jamais.

Outra coisa: esqueci o meu coração na tua casa, se achar me devolve (é um bem arranhado e dá choque).

O método Marie Kondo aplicado ao amor

kono

Eu abri o meu guarda-roupa e vocês todos caíram no chão do quarto. Estavam ali amassados, que nem o Robert Smith no “Close to me”. Lembra? Teve uma noite que a gente ficou na cama vendo este clipe tipo um milhão de vezes. Mas agora vocês estão todos ali, no chão meu quarto. Porque hoje é dia do “Método Marie Kondo aplicado ao amor”. Marie Kondo vendeu dois milhões de livros com sua metodologia de arrumar a casa. Que consiste, basicamente, em se livrar. Abrir seu armário e tirar todas as roupas fazendo uma grande montanha (sim, é este o método). E depois jogar fora todas as que não te dão felicidade. Ficar apenas com as parecem contentes em seus cabides. É por isso que vocês estão aqui, garotos. Basicamente, eu estou querendo me livrar de vocês. “O critério é o mesmo de sempre: provocar uma sensação de prazer ou não. Lembre-se que é preciso tocá-los”, diz a japonesa. E é o que eu faço, deslizando as minhas mãos sobre vocês. Talvez eu ainda guarde um ou dois, mas saibam que hoje é dia de faxina. Sem ressentimentos, vocês serão sempre um pouco em mim, parte do que eu me tornei, mesmo que em forma de cicatriz. Não fiquem assim, tá tudo certo. Apenas riam e escondam as lágrimas nos olhos. Because boys don’t cry.

A mulher mal-amada

Existem mulheres mal-amadas. Homens não. Ninguém anda por aí a comentar, “olha ali o Alcides, aquele pobre de um mal-amado”. Já nós, mulheres, temos que viver tomando o maior cuidado com o que dizemos. Senão, nos acudam, podemos ficar com a pior das das famas. A de “mulher mal-amada”. Esse é um adjetivo e substantivo masculino – está no Houaiss – “que ou aquele que é frustrado, não correspondido no seu amor”. Homens, mulheres, cachorros sofrem muito disso aí também. Mas – por que será? – aprendemos a usá-lo apenas no feminino.

Este hífen que me perdoe, mas se alguém foi mal amada, pior para quem mal amou. Eu, que já fui mal amada e bem amada também, continuo achando que amar muito é só o melhor (e mais sangrento) dos mundos. Frustrações? Só tem quem deseja e só quem deseja vive.

Por isso, bonitinhos, ao discordarem de posicionamentos de mulheres em relação às questões feministas, discordem. Bora sentar e conversar, depois beijar na boca e foder de montão. Mas jamais, jamais, jamais peçam pra que a gente tome cuidado “senão vamos ficar parecendo um bando de mal-amadas”. Simplesmente, não estamos nem aí pra isso.

Aprendam, apenas, a nos amar bem melhor.

I-Ching

“Se eu te perdi não vou voltar pra buscar.” Uma velha conversando com as próprias sacolas subindo a Santo Amaro. Mas eu pensei que era o I-Ching.

Sample: “Instruções”, do Luis Fernando Veríssimo

Não, este não é mais um texto fake do Luis Fernando Veríssimo. Eu sei  porque eu mesma estou aqui, com “A velhinha de Taubaté” ao meu lado, digitando. Achei a cara da gente, a cara do Facebook, de todas as nossas exaltações. É um trecho da crônica “Instruções”.

“Este jogo é para crianças e adultos mas se os outros quiserem jogar também podem.
Jogam de quatro a 32 pessoas divididas em quatro equipes, desde que todas falem a mesma língua, nenhuma tenha mau hálito ou alguém na família chamado Olegário e todas caibam na mesma sala.
As equipes devem se posicionar em volta do tabuleiro de acordo com os pontos cardeais. Mesmo os não católicos. Se houver dúvida quanto à exata localização dos pontos cardeais, alguém deve sair à rua e se orientar pelo Sol, que geralmente nasce no Leste e se põe no Oeste, a não ser nos pólos árticos, onde este jogo não é recomendado. À noite, deve-se procurar a constelação do Grande Bode, que tem uma pata dianteira apontada para o Leste e outra pata para o Oeste no Hemisfério Sul e faz um gesto obsceno com as duas patas no Hemisfério Norte, o que não ajuda muito. Melhor perguntar para um guarda.
Para decidir quem será o primeiro a jogar, todos devem gritar bem alto. “Eu! Eu!” Quem conseguir segurar os dados por mais tempo apesar de soqueado e chutado pelos outros dá início à partida. Ele deve atirar os dados pela janela e movimentar sua peça arbitrariamente pelo tabuleiro, na direção dos ponteiros do relógio – ou ao contrário, não faz diferença – até ser interpelado violentamente pelo jogador à sua esquerda. Segue-se meia hora de confusão com pesada troca de acusações de parte à parte. O jogador à direita do que iniciou a partida então joga enquanto o primeiro é levado para o hospital. Como não tem dados, lança o jogador à sua esquerda sobre o tabuleiro. Novo tumulto.
O objetivo do jogo é iniciar a Terceira Guerra Mundial.”

LFV te amo.

PS: (E sim, um texto do 02 Neurônio já foi creditado como sendo do LFV #orgulho, “Um dia de Modess”, uma pérola do Rolinha)

Meu protagonismo é uma arma pra te conquistar

cartaoEnquanto isso, nas escadarias da Cinelândia…

– Abaixa aí este cartaz!
– Por que?
– O protagonismo é nosso!
– Mas eu estou do lado de vocês. Vocês não sabem que esse cara é. Ele é tipo o Cunha da Argentina.

Ficou aquele climão. O argentino de coque samurai podia ou não ficar com seu cartazinho “Fuera Macri” na manifestação da mulherada? E agora? A praça lotada tinha Oxum, sapatão, bucetolândia, trans, mães, bebês, peito, glitter, batucada. Na buena, só ir dar pra roubar protagonismo se ele fosse, tipo assim, um gênio do crime. Fica aí, nego, fica de boa, não é protagonista mas fica como coadjuvante. Fica, vai ter bolo, fica de figurante com fala, vem com a gente até o fim do mundo.

Mas quando fica um climão, sabe como é. A defensora dos pobres e protagonistas foi para um lado. O moço confuso, para o outro. Acabou procurando guarita ao lado do vendedor de pipoca. Ficaram os dois ali, cada um com seu cartazinho.  “Fuera Macri” . “Aceito Visa e Mastercard”.

Ah, esses tempos de protagonismos e carteiras batidas…..

PS: Notícia do dia seguinte, para quem quer saber mais sobre a argentina.
“O anúncio de acordo entre o candidato conservador Mauricio Macri (Mudemos) e um médico do grupo católico conservador Opus Dei que se opõe a práticas anticoncepcionais reanimou o debate sobre políticas de gênero na Argentina”

manifleca
* Fotos da Alessandra Colasanti