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Chelpa Ferro que é de uva

 

chelpaMe imagino, dia desses, na sala de um otorrino. “Vejo que você já tem uma perda auditiva em uma certa frequência”, dirá ele. E eu vou sorrir, com alegria, lembrando de todos os shows barulhentos que eu fui durante a vida. Por sorte, é fácil ler “eu te amo” nos lábios de alguém, do mesmo modo que é difícil acompanhar uma discussão de relacionamento enfadonha. Não deixa de ser uma vantagem neste futuro silencioso que nos espera. Quando ele falar que eu estou perdendo a audição, vou me lembrar de todos os shows do Chelpa Ferro que fui, estava até no primeiro de todos, no CEP 20.000. Depois, vou rir sozinha, até gargalhar. O médico, então, desconfiará de uma demência senil. “Procure um neurologista”, vai dizer. É porque ele não foi no show do Chelpa de ontem, na Sala Funarte Sidney Miller, ocupação Quintavant/Audio Rebel.

Que começou como a gente esperava. Com muito, muito muito barulho. Além do power trio Mekler-Barrão-Zerbini, ainda estavam lá o Thiago Nassif e o Domenico Lancellotti. (Lembro que, embora hoje pareça comum, o Dom foi o primeiro cara que eu vi a pegar uma MPC e usar pra fazer uma batucada, assim, sem cerimônia, como se fosse caixa de fósforo). Bom, então lá está, o caos sonoro maravilha, eletrônica, zumbidos. Até que alguém chega e grita. “Isso aqui é melhor que o Rock in Rio! Chelpa que é de uva!”

É o Cabelo! E não é que o Cabelo é uma artista sensacional. O Cabelo é maluco mesmo. Não que os outros não sejam. Mas são malucos no pé do seu ouvido. Malucos enrolados em fios que passam de cá pra lá, em aparelhos que soltam barulhos, guitarras, radinhos, de alguma forma contidos fisicamente atrás de suas mesinhas e traquitanas. E, até a entrada do Cabelo, se você olhasse para o palco, ia enxergar cinco pessoas fazendo experimentações sonoras numa ocupação de coletivos. Cool, né? Mas a aparição do Cabelo mudou o resultado do nosso Teste de Rorschach, aquele da mancha de tinta. Se você olhasse para o palco ia enxergar… seis malucos.

Seis malucos e um show sensacional. Em que Apocalypse Now Redux rima com Reduc, a refinaria de Duque de Caxias. Em que um ponto de macumba sauda Exu e a jaula de leão não prende cobra. Mas o ápice da loucura acontece quando Radamés Gnattali, Cauby Peixoto e Luiz Gonzaga aparecerem ali, no palco da Sidney Miller. É verdade. Eu estava lá e vi, doutor, juro que foi assim!


Outros shows recentes que amei e você lê aqui. O do Guia Amabis, Manoel Cordeiro e Desumanos, o de alaúde do gringo que faz trilha do Jarmusch.

Mais uns frames safados do Chelpa Ferro
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Tubarão – ‘O pequeno livro das memórias fantásticas’

edupequenoPor Edu K

O ensandecido sol de verão com sua cara redonda e amarela atacou aquele veraneio na Praia Grande com tanta fúria que, se eu e meu pai estivéssemos com fome era só quebrar um ovo (ou dois, ou quatro, dependendo da larica) no asfalto de piche amolecido para que um delicioso “omelete ao molho de poeira” se materializa-se – humm que delícia – em frente aos nossos estômagos nem tão famintos assim pois, afinal, lá estávamos entrincheirados em outra missão quase impossível (mas nem tanto):

ENTRAR ESCONDIDOS NO CINEMA!

“Tubarão”, fenômeno do terror aquático e bilheterias mundo afora, havia acabado de estrear e, ele sem dinheiro, eu sem idade, tínhamos uma só chance de aplacar a minha insuportável ânsia – eu já era um pequeno movie freak, hehe – de ver o tal maldito filme: entrar correndo porta adentro quando a velha senhora que cuidada da roleta desse uma de suas famosas cochiladas!

Hehehe, dito e feito: assim que sua cabecinha branca pendeu para um lado, feito vovozinha assistindo novela das oito, após um breve e silencioso sinal de “avançar”, corremos de nosso posto avançado atrás de uma árvore, atravessando a rua suada de calor, fedendo a borracha queimada (que, no momento, mais me pareceu Napalm). Esquivando-nos dos certeiros raios e rajadas solares e dos carros que cruzavam em sua lentidão dominical de praia, tanques de guerra enferrujados e fora de forma e, contornando cuidadosamente a roleta, adentramos o incrível e mágico mundo da sala escura, mofada e de poltronas quebradas e sujas!

Moral da história: passei o resto do verão sem entrar no mar, com medo do maldito peixão mecânico de Spielberg!

eduk* “Tubarão” foi publicado em “O Pequeno Livro das Memórias Fantásticas. Volume I: contravenção”. Edu K (entre outras peripécias) é o vocalista da banda gaúcha mitológica e adorada DeFalla. “O Pequeno Livro … ” foi lançado “por volta” de 2000, um microzine no melhor estilo papel e xerox.

+ do Pequeno Livro das Memórias Fantásticas
“O comunicador do Aquaman” por Rodrigo Brandão (Gorila Urbano)
“Mentira” por Domenico Lancellotti

Mentira – ‘O pequeno livro das memórias fantásticas’

mentiraPor Domenico Lancellotti

Acreditava, eu ter (5) anos e roubava sempre na carteira da minha avó, na última prateleira do armário, a carteira de couro com estampa cor de laranja de fotografia desbotada, isso eu me lembro ou sonhei.

Ter roubado um maço de notas de um barão, dinheiro era só dinheiro eu não tinha. Depois fugir dos olhares da varanda escondendo na pouca roupa ir à esquina gastar de chocolates do bar.

– Tudo de chocolate!

– Tudo?

Seu Abili me levando pela mão dada e um choquito na outra.
Me expliquei pra varanda e minha voz fina na mentira

– Uma moça passou pela rua deixando cair um maço de notas quando quis avisar ela pulou e correu.

Não sei da reação das pessoas (acho que riram) mas até hoje das lembranças que tenho deste primeiro roubo a mais clara é a da mentira que contei. (No mês que vem, assalto ao clube militar com 16.)

dom*  “Mentira” foi publicado em “O Pequeno Livro das Memórias Fantásticas. Volume I: contravenção”. Domenico Lancellotti é músico e acaba de lançar um novo disco com sua nova banda, a Meia Banda. Você clica, escuta e baixa aqui!“O Pequeno Livro … ” foi lançado “por volta” de 2000, um microzine no melhor estilo papel e xerox.

Mais do Pequeno Livro das Memórias Fantásticas
“O comunicador do Aquaman” por Rodrigo Brandão (Gorila Urbano)

o que virá

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Quem sabe os restos mortais de Tutancamon
As minhas malas prontas
Eu flor vestido de verão
Toda a estática, tudo o que fere
Todos os sonhos, todos os monstros
As bestas que moram dentro dos roncos
O que é lindo, o que é triste
A falta e o que existe
Você vai encontrar
O que tiver que encontrar
Nada que perdeu, só o que virá

Manifesto pela libertação dos virginianos

virgo

O problema deve ser comigo (sim, sou muito autocrítica). E com todos os meus amigos (eles vão concordar, porque também são muito autocríticos). Há algo de errado com os virginianos. Pelo menos, com os MEUS virginianos. Algo não, tudo. Acho inclusive que deveríamos ser banidos da Terra e despachados para um outro planeta, algum qualquer com uma órbita ao redor de Spica, a nossa estrela favorita – que eu acabei de descobrir que na verdade, são duas então, realmente, não teria como dar certo. Lá poderíamos viver sendo o que somos de verdade, loucos, pessoas que repartem o cabelo caminho de rato e gostam de bagunça.

O que dizem de nós. Virginiamos privilegiam o trabalho acima de tudo (trabalhamos porque é meio que obrigado, tá, só para vocês saberem, mas podemos fazer um crowdfunding, se acharem melhor). Uma vez me indicaram uma astróloga ótima, era em Petrópolis, subi a serra de carro sozinha na neblina só para fazer o mapa, chegou lá a mulher me passa uma hora falando de que? De que? De trabalho! Minha filha, alguém sobe uma serra para pegar dica de trabalho?

Dizem também que virginiamos são emocionalmente centrados (ahahahahahahahahahahah) e em relacionamentos são racionais (ahahahahahahahhahahahahahahahahahhahahahaha). Que mais? Nossa casa é arrumadaahahahaha ahahahahahahha. Tudo bem, gostamos de fazer listas. Mas só pra passar o tempo, não vamos cumprir nada daquilo, é como um jogo-da-velha. Outra: o virginiano é crítico. Sim, somos, e todo mundo também é. A diferença é que vocês são em silêncio. E aqui funciona também o princípio da lista: a gente é crítico pra caralho, mas também foda-se, cada um faz o que bem entende da vida, me deixa!

E como agora estamos mais fora de moda do que nunca, pois a mulher na constelação de Virgem está segurando uma espiga de trigo e o mundo é antiglúten, só peço, por favor, tirem a gente do horóscopo (quer dizer, não!, desculpa) Ou, pelo menos, parem de inventar mentiras! E deixem a gente bagunçar o mundo.

PS: Ah, mas é que deve ser seu ascendente. Baby, meu ascendente é em virgem.

Foto: Nasa

Jozef van Wissem e a supresa de um domingo de chuva

Daí que é domingo e você vê que vai rolar na Audio Rebel um show de alaúde (é isso mesmo?) com um holandês (jura?), parça do Jim Jarmusch (tá falando sério?), que fez a trilha do “Amores Eternos” (aquela coisa linda?). Que surpresas a vida tem! Jozef van Wissem, todo mundo sentadinho no chão, que noite.

PS: Nesta terça tem em Campinas (Bar do Zé) e nesta quarta em SP (Edifício Martinelli)!

O comunicador do Aquaman em ‘O pequeno livro das memórias fantásticas’

comunicadorPor Rodrigo Brandão

Nos longínquos confins espaço-temporais de Osasco circa 1978, eu era um pequeno suburbano sendo iniciado num turbulento (e até hoje não concluído) processo de inserção social.

Cursava o pré-primário do Jardim Escola Sossego da Mamãe, onde rolava uma curtição num salão cheio de brinquedos velhos antes da aulinha. Quem quisesse podia levar os seus próprios de casa mas eu não fazia isso porque muitos moleques cresciam ozóio em qualquer porra da alheio. Na real, um dia (após ver um desenho dos Super Amigos no qual o Aquaman se comunicava com a Sala da Justiça com um walk-talk verde que eu pirei), eu resolvi inverter a parada. Achei um carrinho velho , sem rodas e verde, e tive plena certeza de duas coisas.

1 – Era o comunicador do Aquaman.
2 – Ninguém se ligava disso e portanto nada mais justo que alguém com noção real daquele artefato tomasse posse dele – e esse alguém era eu.

Não tive dúvida: saí da escola com o brinquedo na mão, na maior cara-de-pau. Na perua escolar que me levava de volta pra casa não pegou nada e pensei: “vitória!” Entrei em casa saltitante, uma adrenalina que não conhecia até então, e fui correndo brincar com meu Aparelho de Aquaman quando, sem mais nem menos, a casa caiu. Meu pai já tinha chegado do trabalho e não pode deixar de perceber aquele brinquedo que jamais havia comprado para mim. “Onde você arrumou isso, filho?”

Megaconstrangido, tive que explicar que tinha “trazido na escola”. Meu pai me apavorou animal, dizendo que aquilo era furto, que era crime, e se eu queria me tornar um marginal, ser perseguido pela polícia e “ver o Sol nascer quadrado”.

Tremendo nas bases, me esforcei muito para conseguir soltar um mínimo “não”.

Ele me intimou a devolver o aqua-fone sem que NINGUÉM mas NINGUÉM percebesse. Me sentindo o pior dos párias, fiz tudo na secreta máxima logo que cheguei no Sossego da Mamãe no dia seguinte, e senti um alívio maior do que eu.

Mas algum tempo depois, já estava metendo a mão no baleiro da mercearia da esquina sempre que o português virava pra pegar o troco das compras que eu tinha acabado de fazer para a minha mãe. Mas isso já é outra fita, deixa pra lá.


ro* “O comunicador do Aquaman” foi publicado em “O Pequeno Livro das Memórias Fantásticas. Volume I: contravenção”. Rodrigo Brandão (aka MC Gorila Urbano) faz parte da Third World Vision Tour, Mamelo Sound System, Zulumbi . “O Pequeno Livro … ” foi lançado “por volta” de 2000, um microzine no melhor estilo papel e xerox, e será relembrado por aqui.

Maracujá

maracujaEscrever não acaba com dor nenhuma
É só um esquecimento passageiro
Negócio para distrair
Ajeitar letras dum jeito bonito
Depois ver a palavra pronta
Aí perceber que tudo continua no mesmo lugar
Talvez eu devesse fazer jardinagem
Escrever não acaba com dor nenhuma
O que acaba com a dor é o maracujá

No final

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I
– No final tudo dá certo!

– No final a gente morre.
– (…)

II
– No final tudo dá certo!
– Não, no final tudo dá errado.

III
– No final tudo dá certo!
– Não, no final é dor e sofrimento. E a morte.
– Não tô falando deste final.
– Tá falando de qual final, então?
– Pensa assim, na vida como se fosse uma série. São várias temporadas. Aí no final de tudo, a série acaba.
– Em dor, sofrimento e morte.
– É. Mas até chegar a isso rolam muitos finais. Onde tudo da certo! 
– Sei.
– Que cara é essa?
– Pensando uma coisa. No final tudo dá certo é o final da temporada ou do episódio?
– Da temporada?
– (…)
– Não chora.

IV
– Sabe o que ia te fazer bem?
– O que?
– Cada vez que você pensar na palavra morte, pensar em outras dez palavras legais, alto astral.
– Coisa estúpida.
– Experimenta.
– Chocolate, sexo, praia, cachoeira, bicho, açúcar, pau, passarinho, macarrão, bunda. Morte.
– (…)
– Não chora

Caronas

carona

Sempre tive um pouco medo de pegar carona, quando eu era pirralha rolava um filme em que o Rutger Hauer era um lourão que matava todos os motoristas. Um clássico, “A morte pede carona”, exemplo da educação pelo terror. Mas, com 17 anos, entrei na faculdade e, no campus da Praia Vermelha,  tinha um ponto de carona localizado estrategicamente em frente ao quebra-molas na porta da ECO.  Aí comecei a adorar este troço, inclusive pegava caronas até para lugares que não estava indo porque, quando você tem 17 anos, é assim:  você entra em um buggy  de um cara maluco que está indo para Copacabana só para andar no buggy  de um cara maluco até Copacabana e depois pegar um ônibus para voltar para casa (lembra, Nina?). Aí fui me especializando, pegava caronas bem incertas, tipo porta do Circo Voador, ei estranho me dá aí uma carona, porque quando você tem 17 anos, é assim: você quer estar sempre no limite de se fuder mas, caso sobreviva, terá uma boa história.

Alguns bons anos depois, na porta do Jive (que época!), eu peguei uma carona inesquecível com o Alberto Marsicano, aquela lenda da música. Na época eu não saiba que ele era aquela lenda da música, nem sabia o nome dele, só que era um cara figura que meus amigos idolatravam. Até que ele começou a fazer uns caminhos bem loucos (não era caminhos bem loucos, era só São Paulo mesmo) e eu, a pirar, como tinha sido idiota em entrar naquele carro, que estúpida, será que eu me jogo do carro ou o que, fui pirando, pirando, pirando, até ele me deixar gentilmente na porta de casa. Mas aí o mundo piorou e a carona saiu de moda. E o inusitado também. Mas como o inusitado é bom! No ano passado, primeiro jogo da Copa, dei carona (de táxi) para duas freiras, mas o táxi quebrou, saltei com as freiras e a mala das freiras, tive que pegar o outro táxi, Brasil quase em campo mas, no fim de tudo, tava lá a boa história e elas ainda prometeram fazer várias preces!

Neste domingo, voltei para o mundo das caronas com estranhos depois de entrar num grupo do Facebook, o “Caronas JF-Rio/Rio-JF”. JF é Juiz de Fora, Rio é o Rio mesmo. É assim: você vai lá e diz se está precisando ou oferecendo uma carona e, quando menos espera, está na BR-040 com dois estranhos em um carro. A vantagem é que custa mais barato – R$ 35 contra os R$ 50 e pouco do ônibus. E, em geral, você embarca e desembarca mais perto – no caso, fui pega na porta da casa da minha avó e saltei a dois quarteirões da minha. A desvantagem é o filme do Rutger Hauer que de vez em quando passa na sua cabeça.

Sem discussões sobre a nova (velha) forma de economia (por motivos de: preguiça), é um puro exercício de empatia (e de confiança, um troço vintage). Duas horas e meia tendo que desenrolar assuntos com duas pessoas que você acabou de conhecer, sendo que uma delas é um paleontólogo que reconhece moedas de um real raras, habilidade que foi comprovada no pedágio. Claro, tem aqueles momentos  “ai meu deus”, como quando alguém pronuncia “Fernando Henrique Cardoso”.  Você teme pelo pior. Mas aí dá pra mudar de assunto e perguntar para o paleontólogo o que ele faz quando volta de uma pesquisa de campo. Ele distribui os fósseis em vários departamentos, como o de Paleobotânica e o de Paleontologia. Aposto que vocês também não sabiam! E quando faltar conversa, é só torcer para o motorista escolher uma boa trilha sonora. Na minha viagem, foi ótima. Talvez seja sorte de principiante.

À porta

passado
O passado bateu à minha porta
E eu abri pensando que era a pizza
O passado bateu à minha porta
E eu falei: não tem ninguém em casa!
O passado bateu à minha porta
E me entregou uma pilha de cartas antigas
No passado ainda escrevíamos cartas
Cartas antigas para amores velhos
O passado bateu à minha porta
Eu vi pelo olho mágico
Fiquei em silêncio. Imóvel no escuro
O passado bateu à minha porta
Desta vez, eu corri para o seu colo
Cheia de saudades
O passado bateu à minha porta
Trouxe flores. Pediu desculpas
O passado bateu à minha porta
Disse que veio me dar um toque
Um conselho, uma confusão
O passado bateu à minha porta
Com suas questões tão
Mas tão, mas tão, mas tão
Mil novecentos e antigamente
O passado bateu à minha porta
E o resto vocês já sabem
Ressaca moral da porra, mulher
O passado bateu, bateu e bateu à minha porta
Não adianta bater, eu não deixo você entrar
As Casas Pernambucanas é que vão aquecer o lar

Oliver Sacks, obrigada, querido

epi

Meu querido Oliver,

O dia mal começou e eu já estou chorando. Não, você não pegou a gente desprevenido, sabíamos que essa hora chegaria logo. Só estávamos fingindo que não. Só fingindo que você estaria sempre por aqui, sendo amoroso com a gente, a gente que frequenta os consultórios neurológicos. Quantas vezes não peguei um livro seu e pensei: será que desta vez o Oliver vai falar de mim?

Todo mundo é diferente, tá certo. Tem gente que tem úlcera, tem gente que vê borrado. Todo mundo é um pouco igual, também, nascemos e vamos morrer. Quando fecha a conta e passa a régua, só estamos aqui fazendo uns lances. Tem os que mudam o mundo, mas a maioria de nós está aqui só fazendo uns lances.

Todo mundo é diferente, tá certo. Mas quem já passou horas e horas em salas frias de exames neurológicos sabe como ser diferente da cabeça dói. Nem mais, nem menos, apenas muito. A moça perguntando se você lavou seu cabelo com sabão de coco, puxando algum assunto para disfarçar,  aqueles fios sendo colocados na sua cabeça com uma pasta grudenta e você, em silêncio, pedindo para que seus neurônios fiquem quietos. Só por um instante. Só desta vez. Cooperem, garotos. Vamos enganar a medicina. Mas não, eles estão sempre fazendo bagunça.

E você, querido Oliver, foi aquele cara que olhou para a nossa bagunça e ao invés de gritar “arrumem logo tudo isso!!!!!”, apenas riu. E disse assim: “que bela bagunça, hein!”
Por isso, meu eterno amor e muito, muito obrigada!
Seguimos sem você, prometemos ficar bem.

* Jô Hallack tem um EEG do tipo alfa irregular com paroxismos irritativos intercríticos, um jeito complicado e disfarçado de dizer epilepsia.

Mais sobre pessoas que tem trecos e troços, leia aqui.