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Esconde-esconde

esconder

Tentei ver por onde você andava dentro de mim. Eu sabia que tinha escondido, escondido em algum lugar bem escondido para que ficasse difícil de achar. Era um cantinho ali disfarçado e eu ainda fui colocando um bando de coisa por cima, uma roupas velhas para doar para o abrigo, todas as minhas tarefas de trabalho, os papéis de rascunho, meus rabiscos, as minhas quatrocentos mil e setecentas obrigações destas últimas semanas. Joguei por cima também umas alegrias, minhas músicas preferidas, uns discursos do Mujica, o resto de um chocolate e uma pilha de contas de telefone, atas da reunião de condomínio, extratos bancários que a gente nunca lê. É possível perder tudo numa pilha destas. Eu pensava. Sei não porque resolvi procurar na noite de ontem. Olha só que coisa, eu sabia exatamente onde te achar. Como se eu fosse um cão farejador destes que mostram nos programas de TV. Te encontrei ali perto do fígado. Jogava cartas com a tristeza, o desejo e a indiferença. Não deu tempo de ver quem estava blefando.

Próxima vez:  esconder direito.

Foto: Samuel Zeller

Posso te pedir uma coisa?

olharÉ de álcool, é de graça
De desejo, de cachaça
É de medo, de incerteza
De amor, de ver beleza
“Posso te pedir uma coisa? Posso te pedir uma coisa?”
“Queria te ver, te ver, te ver. Eu queria te ver”
Você está borrado
Você está borracho
E de longe diz assim
“Queria te ver, te ver, te ver”

Qualquer coisa ou uma praia na Bahia

praiabahia
– Fica assim não –
diz o monstro, fazendo o amigo. – Vamos brincar daquele nosso jogo preferido que eu acabei de inventar.
– Você tá falando do “qualquer coisa ou uma praia na Bahia”?
– Sim, é disso mesmo que eu tô falando!
– Começa você.
– Nova York ou uma praia na Bahia?!
– Uma praia na Bahia!
– Berlim que é a nova Nova York?
– Uma praia na Bahia!
– Lisboa que é a nova Berlim?
– Uma praia na Bahia!
– Copenhagen que vai ser a nova Lisboa?
– Vai?
– Parece que tá super na moda. Não para, Copenhagen?!
– Uma praia na Bahia!
– Uma praia na Bahia! Uma praia na Bahia!

Este é o único jogo em que todos estão do mesmo lado. Ainda que mude a geografia, o melhor lugar para se ir será sempre uma praia na Bahia. Tá, tem também aquelas palafitas n omar turquesa, vocês até já foram, propaganda de cartão de crédito e tal, eu sei.
Mas é na praia imaginária na Bahia que seremos felizes.
Imaginariamente felizes.

Arábias I

arabias1

Era um oásis
Um oásis no meio do deserto
Um oásis como nos desenhos de livros antigos
Um lago, a tamareira
Minha boca seca
Eu mais parte do pó do que de mim
Era uma miragem
Uma miragem no meio do deserto
Um miragem como nos desenhos de livros antigos
Um lago, reflexo ilusório
Meus cabelos cobertos de areia

Sorveteria

Eu levei os meus monstros para passear Fomos tomar sorvete Provamos todos os sabores e ainda repetimos Sentamos no banco da praça Nos divertimos vendo as crianças, os velhos e os namorados Foi uma tarde boa E de noite eles: BÚ!

A maldição da lingerie só pra ele

lingerieso

Tá tudo gostoso. Tá tudo lindo. Aí você tem uma ideia: vou comprar uma lingerie só pra ele.
Danou-se.

O erro já nasceu daí. Deste pensamento equivocado. Porque lingerie a gente compra pra gente. Que homem, no meio daquele bem-bom, vai parar para observar aquela renda bonita, o acabamento fino e no pé do seu ouvido falar assim, baixinho: “que modelagem boa!” Que homem? E se ele existisse, a gente ia querer? Não, a gente ia considerar um problema gravíssimo. Lingerie é despresente: você compra pensando no rapaz que acha que o bom mesmo é a falta da lingerie. Por isso, ele faz de tudo para se livrar dela em dez segundos. É o que geralmente acontece, a não ser quando você resolve usar uma hot-pant pin-up estilo vintage justa, justíssima, neste caso demora mais um pouco, cerca de uma hora e meia. Ou 45 minutos, caso conte com a ajuda dos bombeiros.

Tá tudo gostoso. Aí você tem uma ideia: vou comprar uma lingerie só pra ele. Já na cabine pensa nas maiores safadezas. Quando a moça do caixa está ali te jogando no cheque especial ou dividindo em parcelas até o fim dos tempos – porque se existe um troço caro, é esse – tá lá você pensando mas maiores safadezas. Quando você caminha pela rua com aquela minúscula sacolinha, tá ali pensando nas maiores safadezas. O sorriso da safadeza é tão indisfarçável e lindo que todos os homens que passam começam a se jogar aos seus pés. E a alegria acaba aí, porque a partir deste momento, você estará sob a maldição da lingerie que você comprou só pra ele. O homem será mandado para uma missão secreta na Conchinchina e pronto. Nada da estreia da lingerie. Fica ela ali na gaveta, triste, novinha, sendo consolada pelas outras. “Fica assim não, nega, sua hora já chega”, dizem as rodadas calcinhas de algodão.

E não é que elas estão certas? Pode não ser hoje, nem amanhã, só para ele ou para um outro qualquer. Essa hora chega. E viva a indústria têxtil do Brasil!

As minhas dores

Quando cheguei, ali estavam. Vivas. Ainda sangravam mas me receberam com o mais doce dos abraços. E em troca do meu carinho, me deram todas as maravilhas. Tudo brilhava, tudo era amuleto. Aos sussurros, disseram que eu precisava ir, sem medo.

Foi um único salto.
Impreciso e trêmulo.
O que veio depois eu chamei de futuro

Andar e rir

andarindo

A gente estava combinando um lugar para se encontrar pelo centro da cidade e o amigo me sugeriu bem ali, perto da biblioteca. Não chegava a ser longe do destino final, mas era uma certa caminhada.
– Não é melhor marcarmos mais perto?
– Ali está bom. Assim vamos andando rindo.

Fiquei sem argumento ou contraproposta. Fiquei foi maravilhada. Feliz com a possibilidade de ir andando e rindo para qualquer lugar. Pensei até em sugerir um ponto de encontro ainda mais distante, eu estava mesmo precisando rir.

É que a gente anda muito cansado, anda meio doente, anda de saco cheio. Como somos bobos! Poderíamos estar por aí andando e rindo!

Nossos trecos e troços

trecos

Tem muito tipo de pessoa por aí. Existem pessoas que têm trecos e troços.

Treco é diferente de troço, embora nem eu mesma tenha chegado a uma conclusão exata sobre isso. O troço é uma criatura fiel, sempre te acompanha, até nos piores programas. Alguns ganham nomes científicos e posologia recomendada. Outros, pairam por aí sem explicação. Já o treco é o troço avulso, o bom e velho varejo da banca de jornal. É o troço em seu momento gerúndio, só conjugar para entender: “Me acode, eu estou tendo um treco.” O treco vem e passa. O troço nunca te abandona. Quem tem troço sempre tem trecos. Mas você pode ter uns trecos e não ser considerada uma pessoa de troços. Não é o meu caso. Eu sou uma pessoa que tem trecos e troços.
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Rota

Não existe coisa mais linda nesse mundo. Ele abre o porta-luvas daquele gol amarelo e – sem precisar se virar – lhe estende a mão com um pacote de lenços de papel. – Vamos para onde? E para onde íamos mesmo? Íamos para a Lua,… Read More

Num passe

É pra tomar um passe de mágica até que tudo passe
Talvez você não passe de mágica e um dia isso passe
Que todo passe é mágica
Que tudo passe é mágica
Que o amor não passe. 
De mágica. De mágica. De mágica
Num passe de mágica.

Carta a Plutão

plutao

Já aconteceu com todo mundo e a gente sabe como dói: um dia você é a rainha da cocada preta, o fodão do Bairro Peixoto, o amor da minha vida, a última bolacha no pacote. No outro, simplesmente está fora.  Um dia você é um planeta parte do nosso sistema solar, rodando feliz ao redor do Sol junto com a turma, tendo seu nome sussurrado e decorado por crianças em todos os cantos. No outro, rebaixado a um planeta anão. Fim da festa. Não é fácil.

Mas o mundo dá voltas e você também, Plutão, você dá voltas – mesmo que a sua órbita não seja a mais perfeita de todas.  E aqui estamos: um dia uma  sonda espacial não-tripulada te dá este chega mais e descobre que aí também tem um coração . Pronto: a humanidade inteira volta a lhe adorar. Já aconteceu com a gente.

Querido, eu te digo o seguinte: esses humanos não valem nada. Dizem, inclusive, que quando desaparecerem, a Terra voltará ao seu perfeito equilíbrio e, do jeito que a coisa anda, não demora.  Por isso, não se faça de rogado. Aceite os galanteios e todos estes coraçõezinhos com a mão que este povo faz por aí.  A vingança é um prato que se come frio.  Você é feito de rocha e gelo, meu bem, já deve saber.

* “If all mankind were to disappear, the world would regenerate back to the rich state of equilibrium that existed ten thousand years ago. If insects were to vanish, the environment would collapse into chaos.” E.O. Wilson

Lá vem o meteoro

– Tá vindo um meteoro em nossa direção!
– Então me beija!
– Pô, não entendeu? Tá vindo um meteoro em nossa direção
– Então não fode!

meteoro

NÃO ME MANDE MENSAGEM DE VOZ

agentev

Vamos ficar combinados assim: a única mensagem de voz que eu aceito receber é de amor. Mande, mande, mande. Para todo o resto, ESCREVA. Isso aí, EM CAPS LOCK. Dizem que significa que você está GRITANDO BEM ALTO NÃO ME MANDE MENSAGEM DE VOZ.

O que você tem contra as letrinhas? Eu lembro até de como fui alfabetizada, as consoantes iam passar o dia na casa das vogais e era uma festa. Um dia o B amava o A e dava BA e no outro amava o E e dava BE. E desta pegação toda resultava o dicionário. Mas se você não gosta de letrinhas, assim, tecladas uma atrás da outra, faça uso de uma antiga tecnologia: o telefone. Um troço moderno mas que funciona de modo bem simples, explico: de um lado uma pessoa fala e do outro, na mesma hora, a outra escuta. Olha só que prático e rápido, na mesma horinha! Em tempo real. Não é fantástico?!

“Ah, mas é porque eu estou no carro dirigindo fugindo de um monstro japonês”, mentem as criaturas que amam mensagens de voz. Não, não é. É porque você quer falar sozinho. Hoje em dia a gente só quer falar sozinho. Você não quer que alguém te interrompa. Quer que, do outro lado, o sujeito fique de humilde servo ouvindo tudo que você tem a dizer, em absoluta mudez. No máximo, que resmungue, mas sozinho também. Que ouça os maiores absurdos sem poder argumentar, discordar, concordar, rir com você, rir de você. Que escute as maiores maravilhas sem direito a um suspiro, um riso, um “eu também” no meio da frase. Quando um burro fala o outro abaixa a orelha. E para onde vai aquela palavra que muda o rumo da prosa?

“Ah, mas é que é prático”, mentem as criaturas. Só que eu sou louca, virgem com ascendente em virgem, e fiz os cálculos. Passando a régua, é o seguinte: para que um diálogo simples seja mantido em trocas de mensagens de voz, é preciso apertar no mínimo uns vinte “botões”. Vinte (entre gravar, enviar, escutar, gravar, enviar…). Isso sem falar nas pessoas que, o invés de diálogos, gostam de monólogos alternados, aquelas mensagens de voz gigantes, tipo um “Guerra e Paz”, um ditado interminável que tem o puro objetivo de deixar você sem direito de resposta, sem paciência e sem bateria.

Do jeito que anda, estamos a beira de um gravíssimo problema: a extinção dos emoticons! Por isso, tecle. Mas se quer falar, me liga. Fala que eu te escuto. Coragem. Ainda que eu te interrompa no meio, que mal tem, com jeitinho e amor não dói. Chora, me liga, implora o meu beijo de novo, me pede socorro. MAS NÃO ME MANDE MENSAGEM DE VOZ. NÃO ME MANDE MENSAGEM DE VOZ. NÃO ME MANDE MENSAGEM DE VOZ.

Nossos vazios

O nosso amor não está aqui para dar certo Nenhum amor está aqui para dar certo Amar, se despedaçar em algum momento Mesmo que seja o último de todos Amar é se distrair de tudo o que falta É brincar que a única falta que… Read More