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Onde as dores se encontram

amor

Ela era nova ali e, como sempre costumava acontecer, chegou com jeito de pouca conversa. Apenas ajeitou os óculos escuros e pediu:

– Um café.

Do outro canto do balcão, veio o comentário em voz baixa.

– Essa aí é Dor de Amor. Conheço de longe.

Quem disse foi a Marca de Vacina que, estando ali quase desde sempre, sabia reconhecer uma Dor só de olhar.

Era ali naquele canto da alma que todas elas se encontravam. Feridas, Machucados, Corações Partidos, Traumas, Melancolias. Até mesmo ela, uma simples Marca de Vacina. É porque todas as dores doem, embora algumas pareçam doer mais do que as outras.

Os Traumas, conhecidos por sua péssima memória, quando se lembravam dos seus esquecimentos só saíam de lá carregados. As Queimaduras, Cicatrizes e Ferimentos eram famosos pelo eterno ar de mistério. Nascidos de uma batalha heróica ou de um tombo estúpido? No benefício da dúvida estava o charme. As Tristezas Sem Explicação, velhas senhoras que jogavam buraco e bebiam até cair, moravam no fundo daquela alma antes mesmo que ela existisse. Cada Dor tinha lá sua mania.

– Me serve qualquer coisa forte. E uma ficha para a jukebox – pediu a moça.

– Tome a ficha, dona – disse o barman, enquanto preparava a especialidade da casa – uma dose de gim e outra de estricnina – ao mesmo tempo que olhava discretamente para a Marca de Vacina, que já comemorava a vitória do palpite. É que as Dores de Amor e os Corações Partidos – uns “exageradíssimos”, segundo os desalmados – tinham como característica maior o seu gosto musical imensamente triste.

Ela pôs pra tocar Johnny Cash e dançou, sozinha, no salão.
E todos choraram.

Carta para um amor platônico

platonic

Você me pegou pela mão. E me levou, sim foi você que me levou, para os lugares mais lindos que dá pra imaginar. A gente dançou umas músicas ótimas, assim, no meio da sala, coisa de casal. Fez promessa e tudo, pacto de sangue, coração selvagem. Mas aí você foi lá e descobriu.

Sim, que você só existe dentro da minha cabeça. Fui eu que inventei você. Desculpa, foi sem querer. É que viver dá falta de ar e eu precisava amar outras pessoas, então veio você e me pegou pela mão. E eu fui junto. Não, nem tudo foi invenção. Do lado de fora existe esta tatuagem e este olhar que, um dia, cruzou com meu. Só isso. Todo o resto foi criação minha. Sou seu deus, seu destino, seu inferno.  Mas, olha, inventei também um mundo bom pra você. Aqui dentro a estática é pesada mas eu também penso um bando de coisa bonita. Tem muito passarinho e bicho, aqui tem maresia, onda carneirinho, fim de tarde gostoso. Tem a minha cama quente e eu, eu que moro na minha cabeça também quando não estou do lado de fora, neste negócio de mundo real.

Fica assim não, meu baby, meu amor platônico. Quem disse que o de fora é mais importante  que o de dentro? Quem garante, será que não é justamente ao contrário? Tá, eu entendo, isso te dói, chora. Chora que eu te dou meu colo e você me dá o seu pra que eu chore também as minhas dores. Coisa linda, cê sabe que eu nunca vou te deixar faltar nada. Xícara de açúcar ou cafuné. Uma viagem de barco. É só pedir que eu invento, sou boa nisso. Eu invento tudo pra você. Vem, lambe todos os meus machucados.

Ó, se eu demorar pra voltar, não assuste. Tô do lado de fora com as minhas outras coisas, sofrendo e amando amores reais. Ou só cuidando do almoço e dos tratos pequenos. Prometo te visitar sempre. E aí, vamos fazer as maiores juras. E foder a tarde inteira.

O encontro da Mulher Sonsinha com Deus

ceu

Ela queria muito aquele cara, muito mesmo, coisa de louco. Mas tinha como regra de vida sempre se fazer de difícil. Era seu artifício, dizia que só assim ele ia ficar na dela,  o lance era prolongar o desejo ao máximo. O desejo dele, no caso.  Os homens gostavam disso, garantia, e ainda citava um Freud de mentira (jamais tinha lido!).  Sim, ela era uma sonsinha.  Naquela noite, encontrou seu príncipe encantando,  que chegou em um cavalo branco imaginário.  Mas ela fez que não, fingiu que não, foi um tal de não prá cá e não pra lá, sobre amanhã ainda nem pensei. E  quando estava indo embora atravessando a rua, veio o truque final: a olhadinha para trás. Vocês sabem, né?  Aquela olhadinha “eu sei que você quer e eu também quero mas … me assista ir embora”. No que ela jogou o cabelo e foi virando o rosto cheio de BB cream, pronto.  Um carro pegou a coitada. Uma tristeza, gente.

A Mulher Sonsinha acorda nas portas do céu. E é aí que  vem a surpresa. Deus é mulher. E  uma mulher e tanto, uma mulher fodona, sem paranoia besta, uma mulher cheia de desejos, a mulher que todas nós queremos ser um dia. Deus não fica pensando demais, Deus não faz a louca, não fica cheia das autocríticas. Porra, Deus, você é demais, mulher. Também, sendo  Deus fica fácil. Além de ser uma espécie de Super-Heroína, Deus – que criou o mundo inteiro porque antes nada havia- não tem mãe, nunca teve, nem terá. Assim, até eu, né querida, quer dizer, me desculpe a intimidade, até eu, Deus. Quer dizer, Deusa.

E tem mais um detalhe: ao contrário da Mulher Sonsinha, que está vestida com um camisolão branco de filme espírita, Deus está pelada.
Absolutamente, totalmente, maravilhosamente nua.
Fim.

Esqueça

Esqueça todo o resto. A vida é uma tarde ao redor de uma mesa com bons amigos, por favor mais quatro cafés, garçom mais oito cafés, garçom, mais vinte cafés. Esqueça todo o resto. A vida é uma tarde em uma cama cheia de amor,… Read More

Meu fogo

Tão quente a chama, depois incendiou É brasa, assopra, inflama, é do coração É pleno, não escondo e tudo mereço Apago no silêncio que surge entre nós Mas fogo era eu, se eu era ventania Fogo serei, rainha, serei vendaval Sou chuva, água, ouro eu… Read More

Bora?

Eu abri a porta e ele estava lá: Fidípides, ele mesmo que, depois de correr 42 quilômetros, me entregou uma mensagem, e era sua, uma coisa linda, escrita de próprio punho, era você me convidando para sair. E enquanto eu lia as mais doces palavras, … Read More

Me atraso porque mereço

atraso

A vida é uma pequena ilha de coisas boas. Cercada de horários por todos os lados. Datas de entrega. Minutos, segundos, horas e a possibilidade diária de se atrasar para um compromisso. E compromissos estão divididos em duas categorias: os amorosos e todo o resto.

Para os compromissos amorosos, consigo ter uma pontualidade tão britânica capaz de me dar uma comenda do Palácio de Buckingham. Se eu chego atrasada (um tantinho de nada) é porque quero. Não para o que o outro fique esperando, isso só serve para as noivas – uma licença poética bonita – e para as sonsas. Se atraso num compromisso amoroso é apenas para aproveitar um pouco mais daquela taquicardia boa, daquela sensação de “me acode que eu vou ter um troço”. (A sensação de “me acode que eu vou ter um troço” também está dividida em categorias, neste caso três: a amorosa, a dos ataques de pânico e a dos troços propriamente ditos. Isso fica pra depois.)

E por que não atraso? Simplesmente porque eu estava esperando aquele compromisso amoroso desde sempre, desde que nasci em Minas Gerais nos anos 70. Durante os últimos tempos, tudo o que fiz foi dar um tempo. Caminhar até a galeria para fazer uma aposta na lotérica, ler os classificados para ver se vendem algo que não preciso, alimentar pombos na praça. Estava fazendo hora até que a boa hora chegasse. “Vem logo”. “Sim, lindo, chego em cinco!”

No caso dos compromissos “todo o resto”, é justamente ao contrário. Sempre atraso. E por que? Atraso porque mereço. Mereço ouvir um disco de canções incríveis e depois ouvir de novo e depois repetir. Mereço brincar de videoclipe imitando a Beyoncé. Mereço dublar a Amy e a Nina. Mereço fingir que sou a Clara Nunes. Mereço deitar no chão e pensar loucuras. Mereço fazer loucuras. Mereço reler correspondências românticas. Mereço clicar em vídeos de conteúdo impróprio e espalhar vírus pelas redes sociais. Mereço ler aquela coisa linda que eu já li tantas vezes mas sempre choro, aquela coisa que eu queria ter escrito mas não escrevi, mas pelo menos eu posso ler. Mereço até ter um delírio de ruína e cair na cama chorando por alguma coisa que não me lembro direito sobre o que era preciso falar disso na terapia. Mereço travar uma luta inglória pela sobrevivência da raposinha do Ártico. Mereço planejar a revolução. Ou, se não der, planejar uma viagem imaginária para algum lugar distante com bichos estranhos. Mereço me vingar, ainda que seja uma falsa vingança, daquele lance de mais valia. Mereço tudo e, por isso, atraso.

E vou sempre atrasar. Nos minutos do atraso é que está a vida.

Foto: Volkan Olmez

Facebook

Eles tinham se conhecido em um almoço de aniversário de um colega. A festa rolou até o fim da noite e, como moravam perto, na volta dividiram o táxi. Papo vai, papo vem, concluíram que tinham muitos conhecidos em comum. Como, até então, não eram amigos? Trocaram telefones. Ficaram de se falar.

Existe um abismo profundo que separa “ficar de se falar” de qualquer coisa que se passe no mundo real. Ela pensava nisso enquanto caminhava pelo bairro e, passando pela casa do novo “amigo”, notou a porta entreaberta. E entrou. Por um minuto ficou ali parada, olhando para a decoração, os porta-retratos, a correspondência em cima da mesa. Na estante, os álbuns de fotografia. Não faria mal dar uma espiada.

Ele em uma casa de montanha sorrindo com uma mulher loira de casaco de tricô. O verão passado na praia com camarão frito. De terno em um casamento com um casal de idade. Ele a loira em Buenos Aires. Uma paisagem bonita com um vaca pastando. Uma foto desfocada com uma anotação: “noite incrível”. Só quando estava amanhecendo foi embora.

Na noite seguinte, voltou. E voltou, voltou, voltou. Passava horas olhando os álbuns. Com a mulher loira de novo, os dois pareciam bêbados e felizes. Uma fotografia em preto e branco da avó. Ele em um escritório com a gravata amarrada na testa e um bolo de aniversário de padaria ao lado da impressora. Em um lancha com uma morena ao fundo segurando um drinque. Logo, a obsessão passou a lhe tomar as tardes. Leu todos os seus diários. Ouviu todos os seus discos. Descobriu tudo o que ele havia feito nos últimos três anos. Intimidade. Falta de controle.

Nos últimos tempos, por conta do vício, tinha começado a faltar o trabalho. O chefe, com a voz embargada, a demitiu pelo telefone. Os mais chegados tentam – insistentemente – fazer algum tipo de contato. Mas ela raramente está em casa. Passa as tardes em apartamentos de estranhos, vasculhando. Nesta semana, por exemplo, foi no da mulher loira de casaco de tricô. Pelo que ela pode averiguar, agora ela está dando um tempo na Bahia em uma comunidade que planta orgânicos.

Nunca mais viveu sua própria vida.

Fico não

Quando eu estava na porta, veio atrás de mim. Avisei logo que iria sozinha. “Sair?” Tirando minha mão da maçaneta com delicadeza, ele disse assim: “Mas o mundo só é perfeito aqui.” Seus dedos escorregando pelas minhas costas. Devagar. “Nossa cama é gigante, poderíamos foder… Read More

Amor de táxi

A mão escorregando para dentro do vestido. – Preferem ir por onde? Por Petrópolis. Pelo Caminho de Santiago. Por uma rodovia estreita, de mão dupla, cheia de quebra-molas. E devagar.

A arte inútil de espantar fantasmas

Fantasmas são assim: chegam sempre sem avisar. Jamais tocam a campainha – simplesmente porque nunca devolveram as chaves. (E você pediu?) Tem em comum a irritante falta de cerimônia: botam o pé no sofá até mesmo de sapatos, nome sofisticado que damos aos tênis. Sempre… Read More

Eu acho é pouco eu quero é mais

Só me dê tudo, pão com manteiga, café-com-leite, abacaxi. De cada, outro, sorvete, bala, carinho, foda, suor, amor. Eu quero o excesso, até que entorne, cigarro, sonho, maracanã. Eu acho é pouco, fumar maconha, brincar na areia, comer quindim. Dançar descalça, deitar na rua, perder… Read More

Rapaz, complicou

Antes de morrer a pessoa tinha que plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Agora tem que conhecer mil lugares, ver mil filmes, ler mil livros, beber mil cervejas, dirigir mil carros, ouvir mil músicas, fazer sexo em cem lugares diferentes e… Read More